Meu pai toma muitos remédios: o que é polifarmácia e como reduzir
A polifarmácia é uma das principais causas de queda, confusão e internação em idosos. Entenda os riscos e como a revisão farmacológica pode ajudar.
Uma das cenas mais comuns no consultório do geriatra é a família chegar com uma sacola cheia de caixas de remédios. O idoso toma quatro, cinco, seis medicamentos de manhã, outros tantos à noite, e ninguém sabe ao certo para que serve cada um.
Esse cenário tem nome: polifarmácia. E é uma das principais causas de internação em idosos — um risco que, muitas vezes, pode ser reduzido.
O que é polifarmácia
A definição mais aceita é o uso contínuo de cinco ou mais medicamentos ao mesmo tempo. Alguns estudos consideram polifarmácia a partir de quatro. O ponto não é apenas a quantidade, mas o impacto no organismo.
Por que o idoso é mais vulnerável
O corpo do idoso processa medicamentos de maneira diferente:
- O fígado metaboliza mais devagar
- Os rins eliminam menos
- A composição corporal muda (menos água, mais gordura)
- O cérebro é mais sensível a sedativos
- As interações entre remédios se multiplicam
Um remédio seguro no adulto pode ser inadequado no idoso — e duas substâncias que convivem bem isoladamente podem causar problema quando tomadas juntas.
Sintomas que podem ser efeito dos remédios
Muitos sintomas atribuídos à "idade" são, na verdade, efeitos colaterais de medicamentos.
- Tontura e quedas
- Confusão ou desorientação
- Perda de apetite
- Sonolência excessiva durante o dia
- Insônia ou agitação à noite
- Constipação
- Perda de libido
- Boca seca
Se algum desses sintomas apareceu depois de começar um medicamento novo, vale comentar com o médico.
A cascata iatrogênica
É uma armadilha comum: o remédio A causa um efeito colateral, que é interpretado como sintoma novo, e o médico prescreve o remédio B para tratá-lo. O remédio B tem seu próprio efeito, e surge o remédio C.
Em poucos anos, o idoso acumula uma lista de medicamentos em que cada um existe para compensar os outros.
A saída não é mais remédio — é revisar a lista.
Medicamentos que merecem atenção em idosos
Existe uma lista internacional de referência (Critérios de Beers) com substâncias que, em geral, são inadequadas para idosos. Incluem:
- Benzodiazepínicos (diazepam, clonazepam, bromazepam) para dormir ou ansiedade
- Anti-inflamatórios (ibuprofeno, diclofenaco) de uso contínuo
- Alguns antialérgicos de primeira geração
- Certos antidepressivos tricíclicos
- Relaxantes musculares sedativos
Nenhum deles deve ser interrompido por conta própria, mas todos merecem revisão médica.
O que é revisão farmacológica
É uma avaliação completa de cada medicamento em uso. O geriatra analisa:
- Para que cada remédio foi prescrito
- Se ainda faz sentido hoje
- Se a dose está ajustada para a idade e função renal
- Se há interações perigosas entre os itens
- Quais podem ser suspensos (desprescrição)
- Quais poderiam ser substituídos por opções mais seguras
O resultado costuma ser uma lista menor, mais segura e mais clara.
Como a família pode ajudar
Antes da consulta:
- Faça uma lista escrita com o nome, a dose e o horário de cada medicamento
- Inclua suplementos, vitaminas e fitoterápicos
- Separe as caixas e leve todas
- Anote quem prescreveu cada item
- Liste queixas recentes (tontura, sonolência, perda de apetite)
Durante a consulta:
- Pergunte para que serve cada remédio
- Pergunte se algum pode ser retirado
- Alinhe com o geriatra um plano de redução gradual, quando for o caso
Quando procurar o geriatra
Todo idoso que usa cinco ou mais medicamentos se beneficia de uma revisão farmacológica periódica. A consulta deve ser antecipada se houver:
- Queda recente
- Confusão ou sonolência novas
- Internação nos últimos seis meses
- Adição de qualquer medicamento novo
- Perda de peso ou de apetite
Menos remédios, quando clinicamente possível, é mais qualidade de vida — e menos risco para o idoso.
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Agende uma avaliação geriátrica com a Dra. Paula Baratz Kac.
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